Ausência, de Nana Moraes.

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Exposição “Ausência“, de Nana Moraes.
Salão Nobre
Paraty em Foco 2017

Fotos: Leonardo Assis

Nana é uma figura miúda, magra, cabelos curtos, um olhar cândido embora contundente. Ela poderia ser confundida com uma prisioneira. Alguém que sofreu na carne e no espírito as torturas e agrumes desta vida.

Nana se interessou, de início, por prostitutas de beira de estrada. Agora, se aproximou de mulheres condenadas ao sistema prisional brasileiro. Aquele mesmo cuja primeira providência é marginaliza-las do convívio com os seus filhos. A artista adentrou as jaulas que mantém encarceradas, no Estado do Rio, estas mulheres. Foi uma pequena penca de meia-dúzia delas que se dispôs a ser fotografada. Que aceitou escrever, à mão, cartas a seus filhos. Que permitiu a Nana fotografa-los. E ouvir os depoimentos de ambos os lados, em palavras encarceradas em ausência. Aquela ausência física, doída, dos corpos de mães e filhos que não se veem. E nem se tocam.

Esta poderia ser uma exposição de arte fotográfica. Não o é, apesar das magníficas fotos, esvaziadas de gente, que mostram luz e sombra em grades, portas, bancos de cimento da penitenciária. Esta também poderia ser uma exposição da arte do bordado que refaz cicatrizes ou unta fragmentos de corpos unidos por saudades.

Imagens e bordados unidos numa contemporaneidade fulgurante. A artista não teve nenhuma intenção de reinventar a tragédia. Ou de promover a esperança. Ela, de maneira direta e nítida, deu voz à prisioneira, deu voz à imagem da prisão, deu voz aos filhos repartidos. Criou espantosos retalhos unidos por filamentos de tempo. O tempo da espera lá dentro; o tempo de espera aqui fora.

Num cotidiano tão sepultado pelo lugar-comum, pela mesmice das repetições, Nana Moraes diz a que veio. Nana nos escreve uma carta, como todas as outras aqui presentes, para nos dizer que, para além das grades e do anacronismo do sistema penal, há sempre lugar para que a vida brote, ressurja, fulgure e inunde.

 

Leonardo Kaz